{"id":687,"date":"2011-04-05T08:43:36","date_gmt":"2011-04-05T15:43:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.loucosporgatos.com.br\/?p=687"},"modified":"2011-04-05T08:43:36","modified_gmt":"2011-04-05T15:43:36","slug":"ode-ao-gato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/loucosporgatos.com.br\/?p=687","title":{"rendered":"ODE AO GATO"},"content":{"rendered":"<p>Arthur da T\u00e1vola<\/p>\n<p>Nada \u00e9 mais inc\u00f4modo para a arrog\u00e2ncia humana que o silencioso bastar-se dos gatos. O s\u00f3 pedir a quem amam. O s\u00f3 amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de s\u00faplica, temor, rever\u00eancia, obedi\u00eancia. O gato n\u00e3o satisfaz as necessidades doentias de amor. S\u00f3 as saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>J\u00e1 viu gato amestrado, de chapeuzinho rid\u00edculo, obedecendo \u00e0\u00a0s ordens de um pilantra que vive \u00e0\u00a0s custas dele? N\u00e3o! At\u00e9 o bondoso elefante veste saiote e dan\u00e7a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O le\u00e3o e o tigre se amesquinham na jaula. Gato n\u00e3o. S\u00f3 aceita rela\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia e afeto. E como n\u00e3o cede ao homem, mesmo quando dele dependente, \u00e9 chamado de trai\u00e7oeiro, ego\u00edsta, safado, espertalh\u00e3o ou falso.<\/p>\n<p>\u00e2\u20ac\u0153Falso\u00e2\u20ac\u009d, porque n\u00e3o aceita a nossa falsidade e s\u00f3 admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato n\u00e3o gosta de algu\u00e9m porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, que \u00e9 dele e o d\u00e1 se quiser.<\/p>\n<p>O gato devolve ao homem a exata medida da rela\u00e7\u00e3o que dele parte. S\u00e1bio, \u00e9 esperto. O gato \u00e9 zen. O gato \u00e9 Tao. Conhece o segredo da n\u00e3o-a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 ina\u00e7\u00e3o. Nada pede a quem n\u00e3o o quer. Exigente com quem o ama, mas s\u00f3 depois de muito se certificar. N\u00e3o pede amor, mas se lhe d\u00e1, ent\u00e3o o exige.<\/p>\n<p>O gato n\u00e3o pede amor. Nem dele depende. Mas, quando o sente, \u00e9 capaz de amar muito. Discretamente, por\u00e9m, sem derramar-se. O gato \u00e9 um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano, mas se comporta como um lorde ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o se relaciona bem com o pr\u00f3prio inconsciente n\u00e3o transa o gato. Ele aparece, ent\u00e3o, como amea\u00e7a, porque representa a rela\u00e7\u00e3o sempre prec\u00e1ria do homem com o (pr\u00f3prio) mist\u00e9rio. O gato n\u00e3o se relaciona com a apar\u00eancia do homem. V\u00ea al\u00e9m, por dentro e avesso. Relaciona-se com a ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Se o gesto de carinho \u00e9 medroso ou substitui inaceit\u00e1veis (mas existentes) impulsos secretos de agress\u00e3o, o gato sabe. E se defende ao afago. A rela\u00e7\u00e3o dele \u00e9 com o que est\u00e1 oculto, guardado e nem n\u00f3s queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando esbo\u00e7a um gesto de entrega, de subida no colo ou manifesta\u00e7\u00e3o de afeto, \u00e9 muito verdadeiro, impulso que n\u00e3o pode ser desdenhado. \u00c9 um gesto de confian\u00e7a que honra quem o recebe; significa um julgamento.<\/p>\n<p>O homem n\u00e3o sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se h\u00e1 desarmonia real ou latente, o gato sente. Se h\u00e1 solid\u00e3o, ele sabe e atenua como pode (enfrenta a pr\u00f3pria solid\u00e3o de maneira muito mais valente que n\u00f3s).<\/p>\n<p>Se h\u00e1 pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, eles se afastam. Nada dizem, n\u00e3o reclamam. Afastam-se. Quem n\u00e3o os sabe \u00e2\u20ac\u0153ler\u00e2\u20ac\u009d pensa que \u00e2\u20ac\u0153eles n\u00e3o est\u00e3o ali\u00e2\u20ac\u009d, \u00e2\u20ac\u0153sa\u00edram\u00e2\u20ac\u009d ou \u00e2\u20ac\u0153sei l\u00e1 onde o gato se meteu&#8230; N\u00e3o \u00e9 isso! \u00c9 preciso compreender porque o gato n\u00e3o est\u00e1 ali. Presente ou ausente, ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo n\u00e3o ver, est\u00e1 comunicando c\u00f3digos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.<\/p>\n<p>O gato v\u00ea mais, v\u00ea dentro e al\u00e9m de n\u00f3s. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato \u00e9 m\u00e9dium, bruxo, alquimista e parapsic\u00f3logo. \u00c9 uma chance de medita\u00e7\u00e3o permanente ao nosso lado, a ensinar paci\u00eancia, aten\u00e7\u00e3o, sil\u00eancio e mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e s\u00e1bio, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, j\u00e1 conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova quest\u00e3o, remetendo-nos \u00e0\u00a0 pesquisa permanente do real, \u00e0\u00a0 busca incessante, \u00e0\u00a0 certeza de que cada segundo cont\u00e9m a possibilidade de criatividade e novas inter-rela\u00e7\u00f5es, infinitas, entre as coisas.<\/p>\n<p>O gato \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u00edntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, aten\u00e7\u00e3o. Desatentos n\u00e3o agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precisa de promo\u00e7\u00e3o ou explica\u00e7\u00e3o os assusta. Ingratos os desgostam. Falastr\u00f5es os entediam. O gato n\u00e3o quer explica\u00e7\u00e3o, quer afirma\u00e7\u00e3o. Vive do verdadeiro e n\u00e3o se ilude com apar\u00eancias. Ningu\u00e9m em toda a natureza, aprendeu a bastar-se (at\u00e9 na higiene) a si mesmo como o gato.<\/p>\n<p>Li\u00e7\u00e3o de sono e de muscula\u00e7\u00e3o, o gato nos ensina todas as posi\u00e7\u00f5es de respira\u00e7\u00e3o e yoga. Ensina a dormir com entrega total e dilui\u00e7\u00e3o no Cosmos. Ensina a espregui\u00e7ar-se com a massagem mais completa em todos os m\u00fasculos, preparando-os para a a\u00e7\u00e3o imediata. Se os preparadores f\u00edsicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas n\u00e3o levariam tanto tempo (quase quinze minutos) se aquecendo para entrar em campo. O gato sai do sono para o m\u00e1ximo de a\u00e7\u00e3o, tens\u00e3o e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milim\u00e9trico de cada parte do seu corpo, ao qual ama e preserva como a um templo.<\/p>\n<p>Li\u00e7\u00f5es de sa\u00fade sexual e sensualidade. Li\u00e7\u00e3o de envolvimento amoroso com dedica\u00e7\u00e3o integral de v\u00e1rios dias. Li\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o familiar e de defini\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o pr\u00f3prio e territ\u00f3rio pessoal. Li\u00e7\u00e3o de anatomia, equil\u00edbrio, desempenho muscular. Li\u00e7\u00e3o de salto. Li\u00e7\u00e3o de sil\u00eancio. Li\u00e7\u00e3o de descanso. Li\u00e7\u00e3o de introvers\u00e3o. Li\u00e7\u00e3o de contato com o mist\u00e9rio, o escuro e a sombra. Li\u00e7\u00e3o de religiosidade sem \u00edcones.<\/p>\n<p>Li\u00e7\u00e3o de alimenta\u00e7\u00e3o e requinte. Li\u00e7\u00e3o de bom gesto e senso de oportunidade. Li\u00e7\u00e3o de vida e eleg\u00e2ncia, a mais completa, di\u00e1ria, silenciosa, educada, sem cobran\u00e7as, sem veem\u00eancias ou exageros e incontin\u00eancias.<\/p>\n<p>O gato \u00e9 um monge port\u00e1til sempre \u00e0\u00a0 disposi\u00e7\u00e3o de quem o saiba perceber.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arthur da T\u00e1vola Nada \u00e9 mais inc\u00f4modo para a arrog\u00e2ncia humana que o silencioso bastar-se dos gatos. O s\u00f3 pedir a quem amam. O s\u00f3 amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de s\u00faplica, temor, rever\u00eancia, obedi\u00eancia. O gato n\u00e3o satisfaz as necessidades doentias de amor. S\u00f3 as saud\u00e1veis. 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